De férias


Até Setembro.

silly season

(E é certo. Entrámos oficialmente na altura mais morbosa e aborrecida da época futebolística: a silly season. E enquanto jogadores e dirigentes marcam amigáveis de interesse duvidoso e demarcam os contornos de uma próxima transferência, é nas mentes de cada um que se projecta o campeonato que aí vem.)

- Como explicaria a uma criança o que é a felicidade?
- Não explicaria. Dava-lhe uma bola para jogar.

Dorothee
Sölle, escritora e teóloga alemã.



Best


Os exames impedem-me de postear regularmente, como antes. Hoje deixo esta foto do grande George Best em plena batalha aérea na grande área rival. Esta foto tem tudo. (Façam a comparação com a foto do post anterior). Pois é, o jogo aéreo deve ser a mona lisa das fotografias futebolísticas.

Os intelectuais e o futebol


Parece quase descabido fazer relacionar uma classe que procura a reflexão e o pensamento erudito com o futebol, que é um desporto de massas, fruto da emoção e das manifestações mais primárias.
Mas aí é que está. Estes dois elementos estão mais unidos do que se pensa, como perceberão em seguida.

No texto que vos mostro em seguida, Eduardo Galeano , ilustre intelectual uruguaio e apaixonado do futebol, (muito os intelectuais uruguaios gostam deste desporto, recorde-se apenas Mario Bendetti) faz uma curiosa análise da relação intelectuais-futebol.

"O mundo intelectual sempre adoptou uma atitude superior e arrogante com o futebol e com tudo o que este desporto desperta enquanto paixão colectiva. Este jogo foi condenado por intelectuais de esquerda e de direita. Da direita, dizem eles que o futebol é a prova de que o povo pensa com os pés; da esquerda dizem que o futebol tem a culpa de que o povo não pense. Por sorte, nos últimos anos estas opiniões têem mudado. Muitos intelectuais saíram do armário, como dizem os homosexuais. Antes tinham vergonha da sua paixão e agora mostram-na e falam dela. Sempre, claro está, que se jogue bem. Refiro-me a esses jogos em que se joga por jogar e não por ganhar. O futebol é um desporto que serve para limpar a alma e cuidar do corpo."

Eduardo Galeano

Aproveito esta última frase para vos aconselhar a obra prima deste escritor, "Futebol a sol e sombra" de que falarei proximamente.

José Mourinho segundo John Carlin


Já que no meu último post fiz referência ao grande conjunto de cronistas do El Pais no que a futebol toca, hoje continuo, divulgando o nome de John Carlin.

John Carlin é o típico beef inglês. Amante do bom jogo e do fair play desportivo, Carlin não tem rodeios nas críticas que faz, ainda que seja avesso a favoritismos e idolatrias, tão comuns em tantos jornalistas que entusiasmados por algum jogador ou clube, se desmancham em adjectivos e lambidelas de cú.

Tanto assim é, que um dos seus ódios de estimação é o nosso conhecido José Mourinho. Percebe-se porquê. Um John Carlin respeituoso e bem comportadinho deve ver em José Mourinho, o típico treinador que não olha a meios para atingir os fins, o arauto dos arautos do anti-jogo na Premier League.

O texto tem o sugestivo título de "O homem mais odiado de Inglaterra" (bem demonstrativo aliás do ódio que o inglês nutre pelo treinador do Chelsea).

Atenção, o texto foi escrito depois da derrota do Barcelona ante o Chelsea, numa das recentes edições da Liga dos Campeões.

A tradução já sabem, é por conta da casa.

"O homem mais odiado de Inglaterra" por John Carlin


" Por três pontos, dava um tiro na minha avó". Brian Clough, lendário treinador do Nothingham Forest.

Houve mais decepção em Inglaterra do que em Espanha pela derrota do Barça ante o Chelsea, no jogo que disputaram esta semana. Diria até que a vitória dos blues se celebrou mais em Espanha do que em Inglaterra.

Como é que se pode afirmar tal barbaridade? É uma simples questão matemática. Prestem atenção.

Em Espanha, 30 % da população é do Barça. Em Inglaterra ( e sejamos generosos), 2 % da população é do Chelsea. Este aspecto por um lado. Por outro, dos 98% que não são do Chelsea, todos celebram as suas derrotas. Ou seja, se és inglês e não és do Chelsea, estás contra ele.

Sendo assim (e acabam aqui as lições de matemática), tendo em consideração que a Inglaterra tem 50 milhões de habitantes e Espanha 40 milhões, podemos afirmar que 49 milhões de ingleses choraram a derrota do Barça na última quarta-feira, enquanto que em Espanha só o fizeram 12 milhões (está bem, deveríamos excluir os bébes e os cromos que não gostam de futebol, mas creio que deixei o ponto bem claro, não?).

O ódio (não, esta palavra não é demasiado forte) que o Chelsea desperta entre os adeptos ingleses deve-se a um conjunto de três factores. Primeiro, o facto de há desde um par de anos para cá, eles ganharem tudo. Em segundo, o dono do clube, o multitrilionário russo Roman Abramovich, cuja frivolidade em gastar quantias obscenas de dinheiro em contratações, ofende. Em terceiro, e acima de todos, o treinador, de seu nome José Mourinho.

Que um senhor tão antipático, tão contrário aos valores ingleses mais fundamentais, tenha sucesso e ganhe tanto dinheiro resulta dificil de engolir. Que valores são estes? Basicamente, o fair-play. Soa a frase feita. Mas muitas vezes as frases feitas dizem as verdades. Não é que um inglês seja sempre fiel aos seus princípios, mas é que este atribui uma grande importância ao conceito de ser justo e decente com o próximo.

O segundo valor mais importante em Inglaterra é a modéstia. Detestam-se os fanfarrões.

Durante os dois anos e pico que leva em Inglaterra, Mourinho tem actuado de forma flagrante e quase depreciativa em contra destes valores. A imagem pública do português é a de um homem envaidecido, apaixonado por si próprio, cujas declarações respondem unicamente aos seus próprios interesses, sem a mais mínima vontade de estender a mão aos demais.

O caso mais recente ocurreu a semana passada, após um choque entre um avançado do Reading e o guarda-redes Petr Cech, resultando num internamento por traumatismo craniano para o jogador checo. As descontroladas declarações de Mourinho depois do encontro foram interpretadas pelo público inglês como uma acusação de tentativa de assassinato por parte do avançado do Reading. O qual, tendo em conta de que foi claramente um acidente, causou uma gigantesca onda de indignação nacional.

O que mais põe a mão na ferida do povo que inventou o futebol é o facto de Mourinho ser inequivocamente um treinador brilhante, capaz de pôr jogadores que ganham milhões a lutar como o fizeram contra o Barcelona: não só como se as suas vidas dependessem da vitória, bem como as vidas de mães, mulheres e filhos.

Por tudo isto e por muito mais, cada vez que o Barça joga com o Chelsea de Mourinho recebo emails e chamadas de amigos do Arsenal, Liverpool, Manchester (até de alguns que nem ligam a futebol) expressando o seu fervente desejo de que não só o Barça ganhe ao Chelsea, mas também de que o humilhe. Assim que, para o jogo da segunda volta, a ser jogado dia 1 de Novembro no Camp Nou, Ronaldinho e companhia deviam ter em mente que representam muito mais que um clube, muito mais que Catalunha ou Espanha. Deviam não só vencer por São Jordi, mas também pelo seu homólogo São Jorge, o santo patrono de Inglaterra.

 

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