Clubes de Culto III - Torino - (Historias del Calcio - Um certo tipo de beleza) Enric González
Viveu em cidades como Nova York, Paris ou Washington, mas é desde Roma, na condição de correspondente do El País, que redige as já famosas Historias del Calcio. Nessa coluna semanal disseca o futebol italiano de una maneira única e assombrosa.
Histórias del calcio - Um certo tipo de beleza

Não há vitória tão bela como um bom fracasso. Um axioma, uma verdade tão evidente que dispensa qualquer demonstração. Basta recordar a porta que se fecha obrigando Ethan Edwards a seguir a caminhada (The Searchers), ou Anna a passar ao lado de Holly Martins sem lhe dirigir o olhar (The third Man) ou até Richard Blane no momento em que se despede de Ilsa Lund no aeroporto (Casablanca). Ou algo bem mais terrível: a multidão de sombras caminhando sem destino no final de Espoir, o célebre filme de André Malraux sobre a Guerra Civil Espanhola. A derrota, em certas circunstâncias, converte a dignidade humana num cristal de pureza.
O Torino, como já disse outras vezes, é o vencido mais digno de todo o calcio. A própria História do clube é irrepreensível. O começo do mito foi muito provavelmente o jogo Torino-Legnano de 1921, umas meias finais numa altura em que a liga se disputava num sistema misto de eliminatórias e grupos. O Torino e o Legnano, então em igualdade pontual, jogavam para decidir um lugar na final, mas ao fim dos 90 minutos, o joga acabava empatado a 1. No prolongamento de 60 minutos, não houve golos. Então o árbitro decidiu que se jogasse mais meia hora. Passavam 8 minutos de jogo do segundo prolongamento, quando, já esgotados, jugadores das duas equipas protagonizaram um dos gestos mais bonitos da história do calcio: deixaram a bola quieta no centro do relvado, apertaram as mãos e renunciaram à competição.
Tudo o que se seguiu é do conhecimento de todos.
O Torino teve nos anos 40 uma das melhores equipas da Europa e talvez do mundo. Esa equipa, que chegou a ganhar 5 campeonatos seguidos, desapareceu fatalmente no dia 4 de Maio de 1949, num acidente aéreo.
O Torino teve nos anos 60 um dos futebolistas mais exuberantes, excêntricos e sentimentais de todos os tempos: Gigi Meroni, a borboleta grená. Meroni morreu no dia 15 de Outubro de 1967, no auge da fama, atropelado acidentalmente á saída do estádio por um jovem tiffosi que o adorava; jovem esse, Attilio Romero, que chegou a ser, anos depois, presidente do clube.
Será que passam coisas destas aos outros clubes?
Em 1992, o Toro chegou ao final da taça UEFA. No jogo de ida, Ajax e Torino empataram a uma bola. Na volta, em Turim, o Torino perdeu por 0-1, depois de mandar cinco bolas ao poste.
As primeiras cores da camisola do Torino foram o laranja e o negro, mas como o laranja utilizado se assemelhava em muito á cor amarela, formando assim a bandeira da casa de Augsburgo (preto e amarelo), tal não caiu bem á familia real de Savóia, pelo que pareceu correcto mudar a cor dos equipamentos. Em 1906, na cervejaria Voigt de Turim, um grupo de antigos "juventinos" ingresava na sociedade do Torino, descontentes com a professionalização da Juve e decidiram-se pelo grená como cor definitiva das camisolas. Era uma homenajem ao lenço cor-de-sangue que distinguia a Brigada de Savóia do exército piamontês.
Ontem, no jogo do centenário, o Toro venceu o Empoli por 1-0. Ao Empoli foi-lhe anulado um golo perfeitamente legal. Já o golo do Torino, espectacular, chegou quase no último minuto. Tratando-se do Toro, foi estranho. Como se Richard Blaine tivesse embarcado com Ilsa no avião com destino a Lisboa e mandara Casablanca dar uma volta.
Enric Gonzalez
















































